A Filha Esquecida: Adriana Trigiani Devolve a Voz a Connie Corleone
Há livros que carregamos sem bem saber. O Poderoso Chefão é uma dessas obras que se instala na memória antes que a gente decida conscientemente lê-la — você a leu, viu os filmes, conhece os nomes como os de uma família. Mas Connie Corleone sempre foi a personagem que me deixava algo inacabado. Não pelo que ela faz na história, mas por tudo que não lhe deixam fazer. Era a filha, a esposa espancada, a viúva que aprende a sobreviver. Era o que os homens ao seu redor decidiam que ela fosse.
Por isso, quando soube que Adriana Trigiani escreveria Connie — um romance que coloca Connie Corleone no centro, devolvendo-lhe a história que Mario Puzo sempre manteve nas margens — precisei largar o que estava lendo e ficar quieta por um momento.
Trigiani é conhecida por The Shoemaker's Wife e pela sua capacidade de insuflar vida interior em personagens femininas que o mundo preferiu ignorar. Ao anunciar o projeto, ela disse algo perfeito: “Connie é um romance sobre como uma mulher trabalha para abrir seu próprio caminho num mundo que já decidiu quem ela é, o que significa e como deve ser tratada.” Palavras que se aplicam à metade da humanidade — e que soam exatamente como Connie Corleone.
A Random House publicará o romance no outono de 2027. Será a quinta continuação autorizada da obra original de Puzo — e a primeira a colocar uma mulher firmemente no centro, não como consequência dos homens ao seu redor, mas como motor de sua própria história.
Algo me gera entusiasmo e cautela ao mesmo tempo. O Poderoso Chefão tem milhões de leitores leais que carregam dentro de si uma imagem precisa, quase sagrada, de cada personagem. Mexer em Connie é arriscado. Mas também é necessário. Há algo nesse gesto — recuperar o que foi negado, dizer eu também estava lá, eu também fui testemunha e vítima e sobrevivente — que me parece um ato literário genuinamente corajoso.
Quando esse livro chegar no outono de 2027, já estará sublinhado antes de terminar a primeira página. Algumas notícias chegam assim: como uma promessa pendente que alguém finalmente decidiu cumprir.