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Ali Smith vence o Prémio Dublin 2026 com Gliff: um romance que não pede licença

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Valentina Ríos
· 3 min de leitura
Ali Smith vence o Prémio Dublin 2026 com Gliff: um romance que não pede licença

Há livros que chegam no momento exato. Algo em Gliff, de Ali Smith, parou o mundo literário quando foi publicado, e esta semana a escritora escocesa recebeu o Dublin Literary Award 2026 — cem mil euros — por um romance sobre dois irmãos pequenos que sobrevivem sozinhos depois de a mãe os abandonar, até encontrarem abrigo com um grupo de pessoas à margem do sistema.

O Prémio Dublin é um dos mais democráticos da literatura mundial: as nomeações chegam de bibliotecas públicas de todo o mundo, não de júris fechados. É um prémio de leitores, no sentido mais puro. Ali Smith recebeu o galardão no Festival Internacional de Literatura de Dublim e disse sentir-se «espantada e encantada.» É a reação certa para um reconhecimento que, de alguma forma, ainda surpreende.

O que torna Gliff singular é a forma como Smith trata o abandono sem que os seus personagens o percebam como tal. As duas crianças não esperam ser salvas — observam, adaptam-se, movem-se pelo mundo com uma inteligência instintiva que me fez pensar, de forma oblíqua, em certas personagens de García Márquez: criaturas que entendem o mundo antes de terem palavras para o nomear. O Kirkus descreveu o livro como «uma visão sombria iluminada pelo artesanato envolvente de uma escritora inventiva.» Há escuridão em Gliff, mas também uma espécie de luz acidental na forma como está construído.

Smith é uma das vozes mais formalmente ousadas da literatura em inglês. O seu Quarteto das Estações — Autumn, Winter, Spring, Summer — foi uma aposta que muitos julgavam impossível, publicada quase em tempo real durante o Brexit. Gliff continua essa exploração: em vez de olhar para uma sociedade a desfazer-se, olha para quem já estava fora dela e ainda assim continua vivo.

Na mesma semana em que o prémio foi anunciado, foi publicado nos Estados Unidos Glyph, o romance companheiro de Gliff. Dois livros pensados em diálogo. Depois deste Dublin, o mundo literário parece estar finalmente a pôr-se a par com o que os leitores já sabem há muito. Leia-a.

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