O que significa ter visto: a nova poesia de Andrés Neuman
O título anuncia uma ação concluída. Vengo de ver — 'Venho de ter visto.' Não 'estou a olhar' nem 'vi', mas o estranho tempo gramatical que sustenta o passado dentro do presente como um objeto ainda quente de outras mãos. É um detalhe pequeno. Andrés Neuman tende a fazer com que os seus títulos trabalhem muito.
Neuman é um desses escritores que resiste às categorias confortáveis. Nascido em Buenos Aires, criado em Granada, escreveu romances, contos, ensaios, aforismos e poesia com uma fluidez que parece envergonhar as fronteiras entre formas. Vengo de ver, o seu novo livro, foi descrito em El Cultural como poesia que 'transforma a crise atual em versos, combinando assombro e resistência'.
Em Pequeño hablante, a linguagem era o território. Vengo de ver parece estender essa investigação para fora, para um mundo cuja visibilidade se tornou simultaneamente avassaladora e suspeita. Neuman, que em El fin de la lectura explorou os limites da linguagem crítica, wnosi a este livro a precisão de quem sabe como é fácil a linguagem desmoronar sob o seu próprio peso.
O seu Anatomía sensible percorria o corpo como se inspecionasse um país interior. Vengo de ver vira-se para fora, para o ruído do presente. O 'assombro' que El Cultural menciona não é ingenuidade: é a condição de um escritor que ainda acha o mundo surpreendente apesar de tudo, e que suspeita que essa capacidade de surpresa é em si mesma uma forma de resistência. O título é uma ação concluída. A leitura não.