Andy Serkis tem uma conversa com Gollum — e desta vez é um memoir
Existe uma estranha tradição literária de atores que não conseguem parar de ser as suas personagens mais famosas — não no palco, mas na página. Andy Serkis, cujas memórias My Pressures chegam da Mariner Books a 3 de novembro, levou esta premissa à sua conclusão lógica e possivelmente surrealista: um diálogo entre o homem e as criaturas em que se tornou.
O título brinca com o famoso sibilo de Gollum — My precious — o que já revela algo sobre a relação de Serkis com a seriedade. O livro promete, segundo o editor com entusiasmo considerável, «uma conversa que desafia os géneros entre ator e personagem, imaginação e realidade». O que é uma forma elegante de dizer: Gollum, King Kong, César o símio e a maquinaria sombria do Star Wars vão ter opiniões sobre Andy Serkis do Middlesex.
Serkis construiu toda a sua carreira na brecha entre corpos e imagens, entre o humano e algo completamente diferente. O seu Gollum permanece talvez a performance de adaptação literária mais consequente do último quarto de século. Descent into Hell, de Charles Williams — um romance de duplicação e desintegração espiritual que o próprio Tolkien leu entre os Inklings — oferece um texto complementar estranho: a ideia de que o que projetamos para o exterior acaba por nos falar de volta. Para os fãs da mitologia que moldou o Gollum, a coleção portuguesa de Tolkien, Os Grandes Contos dos Dias Antigos, reúne as histórias que lhe deram a sua sombra.
Se My Pressures funcionar, será um livro sobre a fenomenologia da atuação — o que significa emprestar o corpo à imaginação de outro, e se algo distintamente seu sobrevive ao processo. O estate de Tolkien, imagina-se, tem opiniões que ainda não está partilhando.