Artemis 2: a Lua entre a literatura e as estrelas
Ontem, quando o foguetão SLS se ergueu do Centro Espacial Kennedy arrastando uma coluna de fogo e fumo branco, senti algo que só tinha sentido antes ao abrir certos livros: a vertigem do possível. A cápsula Orion leva a bordo quatro astronautas — Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadiano Jeremy Hansen — numa trajectória de dez dias à volta da Lua. É a primeira vez em mais de meio século que seres humanos viajam para lá da órbita baixa terrestre. Mas a imaginação chegou lá muito antes.
Foi Jules Verne quem primeiro traçou a rota. Em 1865, o seu romance Da Terra à Lua descrevia um projéctil tripulado lançado da Florida — sim, Florida — com uma precisão que ainda arrepia. Verne não se limitou a imaginar a viagem: calculou-a. Previu a ausência de gravidade, intuiu a necessidade de uma velocidade de escape, situou o lançamento a poucas milhas de onde ontem descolou a Artemis 2. Ler Verne hoje, enquanto as imagens do lançamento se repetem em cada ecrã, é assistir a uma conversa entre séculos. Se quiser mergulhar na aventura visionária deste mestre da antecipação, Dois Anos de Férias é uma porta magnífica para o seu universo narrativo, onde cada página respira a mesma curiosidade insaciável que o levou a imaginar a Lua.
Pouco depois chegou H.G. Wells, mas com um olhar diferente. Onde Verne olhava para cima com a fé do engenheiro, Wells olhava para o desconhecido com a inquietação do filósofo. Em A Guerra dos Mundos, os marcianos não esperam a nossa visita: vêm eles. Wells compreendeu algo que a corrida espacial confirma vezes sem conta: sair para o cosmos é também perguntar quem somos, o que encontraremos, o que traremos de volta. Cada missão é um espelho.
O que torna a Artemis 2 única não é apenas a proeza técnica de passar a 4.100 milhas do lado oculto da Lua. É o que representa. Victor Glover é a primeira pessoa racializada a viajar para lá da órbita terrestre baixa. Christina Koch, a primeira mulher. Hansen, o primeiro não-americano. A tripulação desta nave parece-se, finalmente, com o mundo que deixa para trás. Como escreveu Clarice Lispector: «A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como a procuro.» A literatura sempre procurou esta realidade expandida, um céu onde coubessem todos.
Penso em García Márquez, que em Cem Anos de Solidão fez Remedios, a Bela, voar entre lençóis brancos para um céu caribenho, e pergunto-me se toda a literatura latino-americana não terá sido, à sua maneira, uma missão espacial: a tentativa de alcançar o inalcançável com as ferramentas da linguagem. Salvador Landeros Ayala documenta-o de outro ângulo em Missão Possível: Da Praça às Estrelas, onde narra a história real do programa espacial mexicano, demonstrando que o sonho das estrelas também se sonha em espanhol.
A Artemis 2 é uma missão de dez dias. Os livros que a precederam estão em órbita há mais de um século. Verne continua a viajar dentro de cada leitor que vira uma página. Wells continua a lançar perguntas para o vazio. E algures entre a ficção e o fogo dos foguetões, a literatura e a ciência reconhecem-se como o que sempre foram: duas formas da mesma ousadia.
Esta noite, enquanto a cápsula Orion traça o seu arco silencioso à volta da Lua, convido-te a abrir um livro. Qualquer um destes. Deixa que as páginas te levem aonde o foguetão não pode: ao interior da imaginação humana, esse território sem gravidade onde toda a viagem começa.
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