A maior livraria do mundo abre as portas para a IA: o que nenhum algoritmo pode escrever
No ano passado, James Daunt declarou que a Barnes & Noble «recuaria» diante dos livros gerados por inteligência artificial. Na semana passada, no programa Today da NBC, disse exatamente o contrário.
Lembro da primeira vez que segurei um exemplar de Cem Anos de Solidão nas mãos. O papel tinha aquela textura de livros que passaram por muitas mãos, e eu sabia—sem saber como sabia—que alguém havia suado aquelas palavras. García Márquez existiu, amou, sentiu o calor de Macondo na própria pele antes de inventá-lo. Isso não é argumento sentimental. É a condição que torna possível o ato de ler.
Daunt anunciou que a rede venderá livros gerados por IA, desde que estejam claramente identificados. «Bom senso e aceitação», diz ele. Mas há uma pergunta que ninguém fez: quem está pedindo esses livros? Os leitores não estão entrando em livrarias exigindo o último bestseller algorítmico. A demanda é construída pelas empresas de tecnologia, não pelos leitores.
Os sistemas de IA treinam com o trabalho de escritores que nunca consentiram. Cada livro gerado por máquina carrega dentro de si, como uma sombra, o trabalho absorvido de milhares de autores que nunca foram perguntados, nunca foram compensados. Elena Ferrante, Clarice Lispector, Isabel Allende—vozes que aprenderam a escrever lendo e que agora alimentam, sem saber, uma indústria que ameaça substituí-las.
O que mais me preocupa não é a qualidade—alguns livros de IA serão competentes—, mas o que estamos ensinando aos leitores mais jovens sobre o que é um livro. Um livro é o registro de uma mente que lutou com algo. A luta é o que importa. Não se pode gerar. Só se pode imitar, e a imitação, por mais convincente que seja, tem um vazio no centro onde deveria haver alguém. Abra um livro escrito por alguém que ficou acordado até as três da manhã perguntando-se se a frase estava certa. Essa pessoa está esperando por você do outro lado da página.