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Beatriz de Moura, fundadora da Tusquets, morre aos 87 anos

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Valentina Ríos
· 3 min de leitura
Beatriz de Moura, fundadora da Tusquets, morre aos 87 anos

Há editores que publicam livros. E há editores que mudam a forma como uma língua se lê a si mesma. Beatriz de Moura, fundadora da Tusquets Editores, morreu esta semana em Barcelona com 87 anos, e com ela parte uma das figuras mais silenciosas — e mais essenciais — da edição literária do século XX em língua espanhola.

Conheci o seu trabalho antes de conhecer o seu nome. Há capas, tipografias, certas margens que se reconhecem sem precisar de ver o colofão. Muitas dessas edições — as que encontrei numa estante em Bogotá, as que redescobri mais tarde em livrarias de Barcelona — traziam o selo da Tusquets. Era uma forma de entrar na Europa pelo espanhol, ou de trazer a Europa até nós.

Nascida em Lisboa, Beatriz de Moura fez da Catalunha a sua pátria literária e fundou a Tusquets em Barcelona em 1969, em pleno franquismo, quando publicar era também um acto de resistência. A colecção Marginales acolheu escritas incómodas, vozes que não cabiam nos catálogos mais cautelosos da época. O catálogo foi crescendo: Juan Marsé, Fernando Vallejo e — talvez a aposta mais duradoura — o resgate para os leitores em espanhol da obra do escritor húngaro Sándor Márai, que morrera quase esquecido em Los Angeles em 1989. La mujer justa e La herencia de Eszter tornaram-se, graças à Tusquets, revelações para toda uma geração.

Recebeu a Medalha das Artes de Espanha e o Prémio Sant Jordi — honras institucionais que nunca chegam a medir o que realmente fez. O que fez foi construir um espaço de confiança entre autores difíceis e leitores que ainda não sabiam que os queriam. Apostou em livros sem audiência garantida e criou-a, pacientemente, com cada nova aposta.

Quantas vezes lemos um livro sem saber o nome de quem o tornou possível? Os editores trabalham nessa invisibilidade — a mesma dos tradutores e revisores, de todos os que fazem com que as palavras cheguem aos seus leitores na forma exacta de que precisam. Beatriz de Moura era uma dessas pessoas que constroem mundos sem os assinar.

Os livros que publicou permanecem nas nossas mãos. É a única imortalidade que o ofício editorial pode oferecer, e ela conquistou-a.