As livrarias negras não são uma raridade: são o coração de uma literatura
A primeira vez que entrei numa livraria de verdade eu tinha onze anos, em Bogotá. Minha mãe me levou a um sebo perto da Candelaria que cheirava a papel velho, a algo próximo de uma promessa. O livreiro nos conhecia pelo nome. Nunca esqueci isso.
Hoje, 7 de abril de 2026, a Associação Nacional de Livrarias Negras dos Estados Unidos (NABB) declarou este dia o Dia Nacional das Livrarias Negras. Não é um gesto simbólico vazio. É um ato político, cultural e emocional num momento em que as políticas de diversidade e inclusão estão sendo sistematicamente desmanteladas em muitas instituições americanas. Quando uma livraria negra abre suas portas — em Harlem, em Atlanta, em Oakland — está fazendo algo que vai muito além de vender livros: está preservando uma memória que muitos prefeririam ver apagada.
Há uma linha que conecta o Harlem dos anos 1920 ao presente. James Weldon Johnson publicou The Autobiography of an Ex-Colored Man em 1912 — primeiro anonimamente, como se a história de um homem que navega entre duas identidades raciais fosse perigosa demais para ser assinada. Anos depois, Wallace Thurman escandalizou a própria comunidade negra com The Blacker the Berry, um romance sobre o colorismo interno — aquela vergonha que não vem de fora, mas de dentro. Esses livros existiram, circularam, sobreviveram porque houve livrarias que os puseram em suas prateleiras. Livrarias que disseram: essa história também importa.
Penso em Jesmyn Ward, uma das vozes mais poderosas da ficção americana contemporânea, que em Let Us Descend transformou a história da escravidão numa épica íntima e devastadora. Ou em tudo o que ainda está por vir: uma nova geração de escritoras e escritores negros que publicam romances, poemas e ensaios que nem sempre chegam às prateleiras das grandes redes. As livrarias negras são o ecossistema onde essa literatura respira.
Na América Latina sabemos algo disso. As livrarias independentes — de Bogotá, da Cidade do México, de Buenos Aires — sempre foram mais do que um negócio. García Márquez não teria sido García Márquez sem a cultura de leitura que o cercava, sem os livreiros que recomendavam com paixão e convicção. A livraria como espaço político não é uma invenção anglo-saxônica: é uma prática latino-americana de sempre.
Encontre hoje uma livraria negra. Se você estiver nos Estados Unidos, entre. Compre um livro. Se não estiver, leia uma escritora ou escritor negro cuja voz você ainda não ouviu. Segurar um livro nas mãos sempre foi, de alguma forma, um pequeno ato de liberdade.
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