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O debut de Bobuq Sayed é sobre homens afegãos e queer em Istambul — e também sobre nós

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Dani Carrasco
· 3 min de leitura
O debut de Bobuq Sayed é sobre homens afegãos e queer em Istambul — e também sobre nós

Pergunta: quando foi a última vez que você leu um romance de estreia que te fez pensar em James Baldwin, no desejo como ato político, em drones sobre Cabul e em quão quebrada é a ideia do «americano no exterior» — tudo na mesma tarde?

Porque No God but Us, primeiro romance de Bobuq Sayed (2026), faz exatamente isso. A história: Delbar é afegão-americano e foge para Istambul depois de ser revelado à sua comunidade em Washington D.C. Lá, encontra Mansur, refugiado afegão que fugiu de Teerã. Dois homens afegãos e queer, em uma cidade no meio entre Oriente e Ocidente, tentando entender o que se deve a quem e se o amor pode existir fora do medo.

Sayed fala sobre sua dívida com Giovanni's Room de Baldwin — o romance canônico do americano na Europa que não consegue ser ele mesmo — mas nota que Baldwin nunca deu voz a ambos os personagens ao mesmo tempo. No God but Us faz isso. Delbar e Mansur não compartilham a mesma experiência de ser afegão, ou queer, ou pobre, ou privilegiado, ou refugiado, ou cidadão. Isso, diz Sayed, é precisamente o ponto.

O que mais me interessa é que o romance recusa a consolação. A diáspora afegã carrega décadas de guerra imperial — soviética, americana, talibã — e isso não se resolve com amor em uma cidade bonita. The Woman, Life, Freedom Revolution de Clara Jensen documenta o levante iraniano com uma urgência que ressoa diretamente com as linhas de fuga que Mansur percorre.

A pergunta que No God but Us coloca — pode o desejo existir fora do poder? — não é nova na teoria queer. Mas em ficção narrativa, em um primeiro romance, com duas vozes simultâneas, é diferente. É Borges encontrando Pizarnik e ambos concordando que o labirinto não tem saída, mas que a arquitetura vale a visita.

O que penso de No God but Us? É o tipo de estreia que te faz sentir quanto tempo você passou sem ler algo que realmente importasse. Leia.

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