"Ama-me como um cão, mas ama-me": as cartas secretas de Cela para a mãe de Javier Marías
V
Valentina Ríos
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Há cartas que não deveriam existir e que, no entanto, explicam tudo. As que Camilo José Cela — antes de ser Nobel, antes de se tornar lenda e monstro — escreveu a Dolores Franco, a mulher que estudava com Ortega y Gasset e que acabaria casando com o filósofo Julián Marías para se tornar mãe de Javier Marías, pertencem a esse tipo de documento que se lê com o coração na garganta.
"Ama-me como um cão, mas ama-me." Era assim que um Cela ainda jovem suplicava a uma mulher que lhe diria não. Uma frase com a brutalidade de quem já sabe que está perdendo.
O epistolário acaba de ser descoberto e publicado por Nuria Azancot em El Cultural, e não é fofoca literária: é uma janela para a pré-história de duas das grandes carreiras das letras espanholas do século XX. O Cela que escreve essas cartas ainda não é o autor de La familia de Pascual Duarte (1942) nem de La colmena (1951). É um rapaz que escreve com urgência, que precisa ser amado, que se agarra a uma mulher que vive no mundo das ideias e da cultura.
Dolores Franco era uma intelectual por direito próprio: ensaísta, tradutora, alguém que cultivava seu próprio pensamento nas margens de uma Espanha que mal deixava espaço para mulheres pensadoras. Ela escolheu Julián Marías — filósofo, discípulo de Ortega — e dessa união nasceu, em 1951, Javier Marías. O mesmo que décadas depois escreveria sobre memória, traição e tempo com uma precisão que desafia o possível.
O que estas cartas nos lembram é que os grandes escritores, antes de o serem, são pessoas que pedem. Que imploram. Que ainda não sabem que a rejeição pode se tornar matéria-prima. Amar alguém que não te ama de volta é, talvez, uma das escolas mais brutais para quem aprende a escrever.
O epistolário não é um escândalo. É literatura dentro da literatura.