Dave Eggers e a arte de escrever a amizade que dura uma vida inteira
Há algo que me pergunto há anos, vivendo entre idiomas e tradições literárias: por que é tão raro encontrar na ficção o tipo de amizade longa entre um homem e uma mulher que na vida real é completamente comum? A novela escandinava não tem especiais dificuldades com isso — Tove Jansson escreveu amizades mumins que flutuam acima do género — mas na tradição anglo-americana, a amizade entre géneros tende a dissolver-se, por conveniência narrativa, noutra coisa.
Dave Eggers, que pensa nisso “sempre”, finalmente escreveu esse romance de amizade. Contrapposto, publicado pela Knopf e editado por John Freeman, abarca décadas em sete secções, seguindo Cricket e Olympia ao longo de uma vida longa. A Publishers Weekly chamou-lhe “um tour de force.” Freeman descreveu Eggers como “um talento de escala vitoriana.”
O título é uma referência ao termo escultórico — a pose clássica em que uma figura desloca o peso para uma perna, criando uma assimetria natural. A amizade também é uma espécie de contrapposto, um equilíbrio que só funciona porque não é perfeitamente simétrico.
O seu debut, Uma história comovente, assombrosa e genial, era maximalista e impossívelmente jovem. O monge de Mocha foi jornalismo esticado até à extensão de um romance. O que Contrapposto parece perguntar é algo que vale a pena deixar repousar: o que custa permanecer perto de alguém durante décadas? Não tenho respostas. Mas sei que os romances que fazem estas perguntas com honestidade são os que continuo a recordar anos depois.