O que Gertrude Stein ainda tem para nos ensinar, através de Deborah Levy
Há algo na natureza de Paris que convida a um tipo particular de retrospeção — a cidade como arquivo, como espelho, como o lugar onde os escritores anglófonos sempre vieram para se tornarem algo diferente de si mesmos. Hemingway fez isso; Baldwin fez isso; e Gertrude Stein, que lá viveu quase quatro décadas, tornou-se de tal forma mobília da cidade que a própria cidade parece tê-la absorvido.
O novo livro de Deborah Levy, My Year in Paris with Gertrude Stein (Farrar, Straus and Giroux), é ao mesmo tempo um memoir, uma peça de crítica, e algo que resiste a ambos os rótulos com a característica teimosia de Levy. É o relato de um ano que a autora passou em Paris — o título deliberadamente emprestado da Autobiografia de Alice B. Toklas da própria Stein, que também não é bem uma autobiografia — rastreando a vida de uma mulher que foi central para o modernismo literário e que, durante décadas, foi sistematicamente pouco lida.
Stein é uma herança complicada. Escreveu de um modo que fazia muitos leitores sentirem-se pouco inteligentes, como se a culpa fosse deles e não de uma prosa a fazer algo genuinamente novo. Virginia Woolf em Um quarto que seja seu perguntou se a escrita das mulheres alguma vez receberia o apoio institucional de que necessitava. A pergunta não era retórica.
Levy traz a Stein uma atenção particular: não reverência, mas reconhecimento. O resultado é um livro que ensina a ler Stein não explicando-a mas pensando ao seu lado. O mundo modernista que Stein habitava encontra o seu eco em O bom soldado de Ford Madox Ford, um romance de traição velada de 1915 que mapeia o mesmo mundo eduardiano do ângulo que os homens controlavam.
O que Levy entende é que o Paris de Stein não era o mesmo que o de Hemingway ou Fitzgerald. Era um Paris de trabalho, de duas mulheres a construir algo duradouro enquanto os homens à sua volta escreviam sobre construir algo duradouro.
O livro chega num momento em que a questão sobre quais escritoras foram corretamente valorizadas e quais foram sistematicamente ignoradas é menos académica do que costumava ser. Levy não faz esse argumento em voz alta. Faz-o prestando atenção.
O que fica, quando se fecha o livro, é uma pergunta que a própria Stein aprovaria: não se foi subestimada, mas o quão diferente teríamos lido tudo o resto se ela tivesse estado corretamente presente.