Dungeon Crawler Carl é número um. O que isso nos diz?
Há uma passagem em Fome de Knut Hamsun — o narrador recusando a caridade, faminto com uma espécie de orgulho furioso — que sempre me pareceu a declaração mais pura de autodeterminação literária. Regresso a ela agora, talvez de forma incongruente, enquanto leio que A Parade of Horribles, o oitavo volume da série Dungeon Crawler Carl de Matt Dinniman, estreou esta semana no número um da lista de ficção da Publishers Weekly.
O litRPG — um género que mistura a mecânica e a linguagem dos jogos de interpretação de papéis com a fantasia — existe há décadas nas margens da edição anglófona, popular nos mercados da Europa de Leste, sustentado por leitores dedicados que o encontraram através de ebooks e comunidades de fãs muito antes de chegar às grandes editoras. Dinniman construiu o seu público completamente fora dessas editoras: através do Patreon, vendas diretas de ebooks, audiolivros. Agora tem quatro títulos simultaneamente na mesma lista de bestsellers, com 1,6 milhões de cópias combinadas.
O que me chama a atenção neste momento não é o género em si, mas o mecanismo. O caminho de um nicho dedicado para a lista de bestsellers já não exige que um guardião abra a porta. A porta simplesmente moveu-se.
Penso no conceito dinamarquês de hygge, essa qualidade de calor e pertença coletiva. O que os leitores de litRPG descrevem quando falam do género soa algo assim: imersivo, comunitário num sentido digital, capaz de gerar o tipo de atenção sustentada que a cultura literária reclamou alguma vez como território exclusivo.
As listas de bestsellers de uma cultura não são os seus julgamentos estéticos; são as suas fomes. Para leitores curiosos sobre a fantasia serializada que este momento celebra, A Necromancer's Guide to Arranged Marriages de Katy Nyquist ou a longa série Bloodbound de Morgan Rice oferecem os seus próprios pontos de entrada. Talvez a pergunta não seja o que isso diz sobre a cultura, mas o que revela sobre os leitores.