Helen DeWitt e o preço de um prémio
Em fevereiro, Helen DeWitt soube que tinha ganho um prémio Windham-Campbell no valor de 175.000 dólares. Em abril, tinha-o recusado. O mundo literário, previsivelmente, teve opiniões.
Volto sempre aos detalhes da sua recusa — não ao grande gesto, que alguns já mitificaram, mas à realidade silenciosa e quase burocrática por baixo. DeWitt estava em Amesterdão. O Wi-Fi era instável. Os dados do telemóvel, limitados. E o comité do prémio exigia, entre outras coisas, uma entrevista áudio imediata, um vídeo para o dia do anúncio, presença num festival em Yale em setembro, participação num podcast e uma contribuição para a Yale Review. A cerimónia do reconhecimento, ao que parece, tem o seu próprio currículo.
O post de DeWitt no X foi caracteristicamente honesto e desprovido de sentimentalismo. Escreveu sobre o risco para a sua saúde mental — não na linguagem terapêutica a que nos habituámos, mas de forma direta. «Quando a mente se parte, as coisas podem ficar muito más», escreveu. «Acidentes de trânsito, perder chaves, telefone, passaporte, cartões; não podia ir por aí. Então tive de parar.»
A resposta dividiu-se em linhas previsíveis. O romancista Joey Comeau questionou se o objetivo do prémio era «ajudar artistas a criar ou criar publicidade para si mesmo». Cathy Park Hong respondeu que por 175.000 dólares teria encontrado forma de cumprir. Ambas as posições carregam uma lógica que se desmorona sob exame.
O que mais me interessa é o problema estrutural que a recusa de DeWitt expõe. O Windham-Campbell é um dos prémios mais generosos da literatura anglófona. O seu estipêndio pretende libertar escritores de restrições financeiras. No entanto, as condições — obrigações promocionais, presença no festival, disponibilidade mediática imediata — pressupõem um escritor móvel, conectado, saudável e preparado para os media.
Penso em Tomas Tranströmer, que após o AVC em 1990 continuou a escrever parte da melhor poesia em língua sueca a partir de uma posição de profunda limitação. Pedir-lhe-iam que gravasse um podcast? A pergunta soa absurda, e é precisamente esse o ponto.
O Último Samurai de DeWitt, publicado em 2000, continua a ser um dos romances mais ambiciosos deste século. É um livro sobre uma mãe a criar um prodígio, sobre a distância entre as línguas que falamos e aquelas de que precisamos. Vinte e seis anos depois, a distância entre DeWitt e as instituições que a querem celebrar parece, se possível, maior.
Talvez a pergunta mais desconfortável que a sua recusa levanta seja uma que ninguém no establishment literário quer responder: se um prémio não consegue acomodar as condições que moldam a obra de um escritor — solidão, precariedade, saúde frágil —, para quem é, exatamente?