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A pesquisa que confirma o que todos suspeitavam: quase metade do setor editorial usa IA

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Dani Carrasco
· 3 min de leitura
A pesquisa que confirma o que todos suspeitavam: quase metade do setor editorial usa IA

Vamos fazer a pergunta desconfortável: o quanto é realmente surpreendente que quase metade dos profissionais do setor editorial use inteligência artificial? Segundo uma pesquisa conjunta de BISG e BookNet Canada divulgada esta semana, 47% dos trabalhadores do livro na América do Norte já incorporam alguma ferramenta de IA em seu fluxo de trabalho — muitas vezes com a mesma culpa silenciosa de quem lê o spoiler de um romance antes de terminá-lo.

O interessante não é a porcentagem. O interessante é que a maioria faz isso apesar de ter preocupações sérias com direitos autorais. Sabem que há um problema. Usam mesmo assim. Isso não é hipocrisia; é prática. Ou, para invocar Umberto Eco antes do previsto: é ser "integrado" em vez de "apocalíptico". Embora os integrados de 2026 precisem conviver com o desconforto de que seu paraíso tecnológico foi construído, em parte, sobre milhões de livros digitalizados sem permissão. Para a genealogia completa desse debate, o Eco de Apocalípticos e integrados — escrito em 1964 sobre a televisão e a cultura de massa — continua mais atual do que deveria.

A pesquisa, notavelmente, não pergunta para que a IA está sendo usada. E aí está a lacuna fascinante. É para corrigir um e-mail às nove da noite quando não sobra energia? Para gerar um primeiro rascunho de sinopse que o editor humano vai reescrever de qualquer forma? Para resumir um manuscrito de novecentas páginas antes de decidir se vale a pena lê-lo? A IA não tem um único rosto no setor editorial — tem tantos quantas as pessoas que a abrem em modo incógnito porque não sabem bem como justificar isso.

Existe uma lacuna enorme entre o debate público — apocalíptico nas manchetes, resignado nos corredores da feira do livro — e o que realmente acontece nos escritórios. Nos debates públicos, a IA ameaça a arte, destrói a criação, reduz a cultura a uma função de previsão de texto. Nos escritórios, alguém a usa para escrever o texto da quarta capa de um livro que chegou há dois dias com prazo de entrega ontem.

E os direitos autorais? A pesquisa sugere que as preocupações existem mas não impedem o uso. O grande litígio da Anthropic — aquele acordo de 1,5 bilhão de dólares ainda aguardando audiência — não mudou o comportamento cotidiano dos editores.

Ninguém tem uma posição moral perfeita sobre isso. Tampouco as pessoas que responderam à pesquisa. Essa é, de fato, a notícia: não que a IA esteja aqui, mas que a ambivalência é a norma. E a ambivalência não é ignorância. Às vezes é a única resposta honesta diante de algo que mudou rápido demais. Você já está usando?