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Para Que Servem os Livros: o Festival Literário de Kyiv Abre sob os Bombardeios

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Sigrid Nørgaard
· 3 min de leitura
Para Que Servem os Livros: o Festival Literário de Kyiv Abre sob os Bombardeios

O 14º Festival Internacional Book Arsenal abriu em Kyiv em 28 de maio, quatro dias depois de um ataque russo com mísseis e drones ter destruído ou danificado vários dos centros culturais mais emblemáticos da cidade: a Filarmônica Nacional, a Academia de Música, o Museu Nacional de Arte, a Biblioteca Nacional Yaroslav Mudry. Esta informação não é contexto. É o próprio acontecimento.

O tema do festival este ano é “Carregue sua liberdade”. Seu curador é Maksym Butkevych — jornalista, ativista de direitos humanos, militar, ex-prisioneiro de guerra. Não são títulos honoríficos. São o registro de uma vida que enfrentou exatamente o problema que o festival tenta abordar: o que significa continuar sendo uma pessoa que lê, pensa e cria sentido quando o mundo tenta ativamente tornar isso impossível.

Os grandes festivais literários têm um ritmo que tende para a celebração. O Book Arsenal de Kyiv é, nesse contexto, algo diferente. Quando se escolhe realizar 240 eventos em cinco dias com mais de 150 editores enquanto as salas de concerto ainda fumegam, não se está celebrando a literatura. Está se argumentando com ela.

Butkevych, que foi mantido como prisioneiro de guerra pela Rússia antes de ser trocado, poderia ter escolhido qualquer tema. Escolheu a liberdade — não como abstração, mas como prática cotidiana. Os Irmãos Karamazov não é um romance sobre teologia ou estrutura familiar. É um romance sobre o que custa a uma pessoa viver com boa consciência num mundo que pune sistematicamente a consciência. Dostoievéski conhecia esse custo da experiência.

Há um livro que pertence ao lado do que está acontecendo em Kyiv esta semana: Freiheit unter Feuer (Liberdade sob o fogo) do repórter de guerra Konstantin Flemig, que escreveu sobre a dificuldade insuportável de imaginar a guerra quando só se conheceu a paz. Essa dificuldade, argumentou, não é uma falha da imaginação. É o que a paz faz a você.

O festival vai até 31 de maio. Suspeito que as pessoas presentes sabem algo que eu não sei sobre por que se senta numa sala com livros e pessoas que amam livros, mesmo assim. Especialmente assim.

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