Pierre Lemaitre fecha a saga com 'Grandes promesas': adeus à família Pelletier
Vamos fazer isto de forma diferente.
O resumo executivo, para quem precisa saber agora: Pierre Lemaitre publicou Grandes promesas, fechando Les Années glorieuses, a sua saga sobre a família Pelletier. Quatro romances, quatro décadas de França, das ruínas da Primeira Guerra Mundial ao início dos anos sessenta. Uma família que Lemaitre usou como espelho deformante de um país inteiro. Se está à espera de começar a série, já pode ser lida completa, por ordem, sem esperar.
Agora, para quem precisa de processar isto com calma.
Conhecem aquela sensação quando terminam o último livro de uma saga longa—e por longa quero dizer anos da vossa vida, não apenas páginas—e não sabem muito bem o que fazer convosco? A saga Pelletier é exactamente esse tipo de projecto. Lemaitre começou como thriller e foi derivando para algo que já não cabe numa única categoria: romance social, saga familiar, crónica da ambição, retrato de como uma nação pode mentir a si própria durante décadas e continuar a funcionar.
O ponto de partida é a França destroçada do pós-14-18, e cada volume avança no tempo com a sua própria crise colectiva. Os Pelletier atravessam-nas todas com uma única constante: que as ilusões e o dinheiro raramente coincidem. É Balzac com melhor ritmo. Zola com menos paciência para o naturalismo sistemático. Também Lemaitre sendo completamente Lemaitre—que, antes desta saga, já nos tinha dado uma trilogia policial de primeira e ganho o Prix Goncourt com Au revoir là-haut. Num dado momento decidiu que o thriller era demasiado pequeno para o que tinha a dizer.
Grandes promesas situa-se no Paris de 1960-1964 e a crítica fala de um retrato sombrio da ambição. Isso é outra forma de dizer que Lemaitre não suaviza o final para nosso conforto. O que, no fundo, é exactamente o que esperávamos dele.
Vivemos na era do fan service, dos desfechos desenhados para que ninguém saia descontente. Lemaitre faz o contrário. Construiu uma saga que olha a história de frente e conclui que o século XX foi, basicamente, uma série de grandes promessas quebradas. O título é irónico? Talvez. É também completamente literal? Sim. Conforme o ângulo, ambas as coisas são simultaneamente verdadeiras.
Tinha pendente começar a saga? O momento é agora.