Marjane Satrapi: ler o seu nome já era um ato de resistência
Lembro-me da primeira vez que abri Persépolis. Tinha vinte anos, morava em Medellín, e alguém o deixou sobre a minha mesa sem dizer nada. Naquela noite li-o de uma vez, sentada no chão do meu quarto, com a sensação de que algo no mundo tinha silenciosamente regressado ao seu lugar.
Marjane Satrapi morreu a 4 de junho de 2026. Tinha 58 anos. A causa da morte ainda não foi divulgada, mas o que ela nos deixa é claro: uma obra que redefiniu o que uma imagem pode fazer quando empunhada por uma mulher que não tem medo da sua própria história.
Satrapi nasceu em Rasht, Irão, em 1969. Cresceu em Teerão durante a Revolução Islâmica, foi enviada a Viena aos catorze anos, regressou, partiu novamente e acabou por se instalar em Paris. Toda essa vida itinerante e fragmentada tornou-se quatro volumes de memórias gráficas publicados entre 2000 e 2003 — e depois um dos livros mais lidos do século. Persépolis é autobiografia em vinhetas: tinta preta, linhas limpas, uma voz que é ao mesmo tempo a de uma criança e a de uma mulher que olha para trás sem nostalgia fácil. Em Paris encontrou na L'Association uma comunidade que também transformava a vida em arte: foi lá que conheceu David B., cuja mitologia escura e poderosa a recebeu como uma irmã.
O que Satrapi conseguiu era improvável: tornar íntimo o trauma coletivo. Condensou uma revolução inteira nos olhos arregalados de uma protagonista de dez anos que usa o véu pela primeira vez. Onde García Márquez tornava o extraordinário ordinário, Satrapi trabalhava na direção oposta — tornava extraordinário o quotidiano de sobreviver.
Em 2007 codirigiu a adaptação animada de Persépolis, que recebeu uma nomeação para o Oscar e o Prémio do Júri em Cannes. Em seguida realizou outros filmes, incluindo Radioactive (2019), sobre a vida de Marie Curie. Mas manteve-se, no fundo, alguém que desenhava mundos para os compreender.
O seu último grande projeto foi editar Woman, Life, Freedom, uma antologia de narrativa gráfica em resposta à morte de Mahsa Amini em 2022. Satrapi conhecia bem esse terreno: décadas a explicar o Irão a quem preferia narrativas mais simples, sem o exotizar, sem o suavizar. Em 2024 recusou a Légion d'honneur francesa, citando a hipocrisia do seu país adotivo face ao Irão.
Era, em todos os sentidos possíveis, alguém que viveu de acordo com o que escreveu. Persépolis muda a forma como se lê o mundo. Se ainda não o leu, este é o momento. E se já leu, talvez seja hora de regressar.