Maryse Condé Fala do Outro Lado: Seu Romance Póstumo Chega à França
Maryse Condé morreu em 2024. Ela tinha ganho o Nobel alternativo e passado décadas sendo a voz mais poderosa da literatura caribenha em francês. Agora, esta semana, seu romance póstumo chega às livrarias francesas. E eu não sei exatamente o que sentir.
Há algo profundamente contraditório no livro póstumo. Por um lado, é um presente. O manuscrito existe; a autora o terminou; seria cruel deixá-lo numa gaveta. Por outro lado, publicar os mortos é sempre um ato de interpretação. O livro que chega às livrarias não é exatamente o livro que a autora teria publicado: alguém escolheu quando lançá-lo, como apresentá-lo.
No caso de Condé, a situação é mais limpa do que em muitos outros. O manuscrito estava terminado. Há um romance, completo, pronto. O que nos perguntamos então não é se deve ser publicado — claro que sim — mas que tipo de leitura merece.
Condé era uma escritora que nunca escreveu do conforto. Seus romances atravessam a escravidão, a colonização, a bruxaria, o deslocamento. O melhor tributo que podemos prestar a Condé é ler o livro como se fosse qualquer outro de seus livros: com atenção, sem piedade, com disposição para ficar desconfortável.