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O Prémio O. Henry regressa à república do conto

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Sigrid Nørgaard
· 3 min de leitura
O Prémio O. Henry regressa à república do conto

Lembro-me de ter lido algures — talvez numa entrevista da Paris Review, talvez numa nota de rodapé — que a escritora dinamarquesa Isak Dinesen descreveu uma vez o conto como "um pacto entre o escritor e o silêncio". O escritor diz o que precisa ser dito; tudo o resto, o leitor fornece. A antologia do prémio O. Henry deste ano, selecionada por Tommy Orange, lê-se como um lembrete de que esse pacto ainda se mantém.

Orange, que recebeu uma bolsa MacArthur e cuja ficção se move entre a contenção e a acumulação, escolheu vinte contos que, como observou a editora da série Jenny Minton Quigley, "assumem riscos e colocam questões sobre as comunidades em que vivemos". É uma afirmação tipicamente americana — o pressuposto de que literatura e comunidade nunca estão distantes — e, no entanto, os contos estendem-se muito para além de um único território.

Há "Five Bridges" de Colm Tóibín, publicado no The New Yorker, um escritor cuja prosa cuidadosa, quase relutante, me lembrou sempre as devastações silenciosas de Natalia Ginzburg. Tóibín, nesta altura da carreira, escreve frases que parecem chegar já sabendo onde precisam terminar. E há "Love of My Days" de Louise Erdrich, também do The New Yorker — Erdrich, cuja obra construiu uma paisagem literária tão estratificada e assombrada como poucas na ficção contemporânea.

O que mais me impressiona nas seleções de Orange, porém, não são os nomes consagrados, mas a amplitude geográfica. Três contos chegam em tradução: "Welcome to the Club" de Samanta Schweblin (traduzido do espanhol por Megan McDowell, na Yale Review), "She-Bear" de Evgenia Nekrasova (do russo, na Kenyon Review) e "Earshot" de Guka Han (do coreano, na The Dial). Há também "Inês" de João Pedro Vala na The Common e "The Hare" de Ismael Ramos, traduzido por Jacob Rogers. O conto, essa forma supostamente paroquial, torna-se aqui um ponto de travessia — entre línguas, tradições, formas de compreender o silêncio.

Brandon Taylor contribui com "American Realism" na The Atlantic, um título que se suspeita não ser inteiramente desprovido de ironia. Weike Wang oferece "Case Study", Catherine Lacey apresenta "The Ghost Coat" na Granta, e Jenny Xie — mais conhecida como poeta — traz "Stick Season" da Sewanee Review. A lista resiste a qualquer escola ou sensibilidade única. É generosa dessa forma.

Na Escandinávia, onde cresci, a ficção breve sempre ocupou um espaço peculiar — respeitada mas ligeiramente órfã, presa entre o prestígio do romance e a intensidade da poesia. Nos Estados Unidos, o conto mantém um peso cultural que pode parecer quase cívico, como se escrever um bom conto fosse uma forma de serviço público. O prémio O. Henry tem reforçado isso durante mais de um século. A curadoria de Orange sugere algo ligeiramente diferente: que o conto não é um tesouro nacional mas um tesouro portátil, capaz de atravessar fronteiras tão facilmente como atravessa a página.

Vinte contos. Uma dúzia de revistas. Pelo menos cinco idiomas. Que tipo de silêncio nos pedem que forneçamos?