Olga Tokarczuk não usou IA para escrever seu romance. O fato de termos tido que perguntar é a verdadeira notícia.
Há uma crueldade particular em acusar uma Prêmio Nobel de ter usado inteligência artificial para escrever seu romance. Carrega implícita a desqualificação: a sugestão de que a maior honraria literária foi prematura, concedida a um talento agora terceirizado a uma máquina. Quando esta semana circularam rumores de que Olga Tokarczuk tinha empregado IA em seu próximo romance de outono, a internet literária fez o que melhor sabe: tirou conclusões na velocidade de um retweet.
Tokarczuk respondeu por meio de sua editora com precisão característica. Usa IA, disse, "como ferramenta que permite documentar e verificar fatos mais rapidamente" — não diferente de como a maioria das pessoas a usa hoje. Ela verifica todas as informações de forma independente. E quanto ao romance que chega no outono: nenhuma inteligência artificial teve parte nele. Ela vem escrevendo sozinha há várias décadas. As observações que desencadearam a especulação foram, em suas palavras, "mal compreendidas". Acrescentou, com o humor seco de quem sobreviveu a scrutínios mais duros do que um fio do Twitter, que embora às vezes seja inspirada por sonhos, "são meus próprios sonhos".
Essa última frase merece atenção. É o tipo de frase que Dickens teria invejado — econômica, irônica e projetada para encerrar a conversa. Imagina-se que teve o efeito oposto.
A verdadeira história aqui não é se Tokarczuk escreveu seu romance com ou sem máquina. É que vivemos num mundo onde essa pergunta pode ser feita a sério sobre qualquer escritor — incluindo a autora de Os Livros de Jacó, um dos romances mais ambiciosos formal e filosoficamente publicados em qualquer língua neste século.
Simultaneamente, outra história mais deprimente se desenrola. Um conto premiado publicado na Granta pelo Commonwealth Foundation Prize foi apontado com quase total certeza como gerado por IA. Essas duas histórias descrevem um momento literário em que a autenticidade se tornou impossível de garantir e necessária de demonstrar. A novela, essa forma tão humana, está sendo obrigada a provar sua própria humanidade.