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Patti Smith recebe o Prémio Princesa das Astúrias das Artes 2026: a poeta do rock chega a Oviedo

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Valentina Ríos
· 3 min de leitura
Patti Smith recebe o Prémio Princesa das Astúrias das Artes 2026: a poeta do rock chega a Oviedo

Existem artistas que não cabem numa única forma. Patti Smith é uma delas: poeta, músico, fotógrafa, narradora, ativista — uma voz que ressoa pelas paredes do Chelsea Hotel e pelas páginas de Just Kids. Esta quarta-feira, a Fundação Princesa das Astúrias anunciou que Smith, de 79 anos, receberá o Prémio Princesa das Astúrias das Artes 2026, reconhecendo "a sua impetuosa criatividade que une o rock, a poesia simbolista e o espírito da contracultura com grande poder expressivo".

A notícia chegou-me enquanto terminava de reler M Train, esse livro inclassificável em que Smith vagueia entre cafés, cemitérios e sonhos. Porque Patti Smith sempre foi também escritora. O seu Just Kids, as memórias sobre o seu amor por Robert Mapplethorpe na Nova Iorque dos anos setenta, ganhou o National Book Award em 2010. Há livros que tocam no peito com a ponta de um dedo e ficam. Este é um deles.

Smith nasceu em Chicago em 1946, cresceu em Nova Jérsia e chegou a Manhattan sem dinheiro. Tornou-se amiga de Mapplethorpe, viveu no Chelsea Hotel, frequentou a Factory de Warhol e publicou o seu primeiro livro de poemas, Seventh Heaven, em 1972. Quando gravou Horses em 1975, criou um dos discos mais influentes do século. Ninguém tinha soado assim antes. Nesse mesmo universo do downtown nova-iorquino que moldou Smith — o dos poetas que subiam ao palco e dos músicos que escreviam poemas — insere-se Chelsea Girls, o devastador autorretrato de Eileen Myles sobre a Nova Iorque dos anos setenta e oitenta.

O Prémio Princesa das Astúrias das Artes já distinguiu nomes como Bob Dylan (2007) e Leonard Cohen (2011). A presença de Smith nessa lista diz muito sobre quem ela é: um nome que não pertence a um único mundo. A cerimónia decorrerá no dia 23 de outubro em Oviedo, presidida pela Princesa Leonor e pelos Reis Felipe VI e Letizia.

O que mais me comove é que Patti Smith não diminuiu com os anos. O seu último livro, A Book of Days (2022), é um diário fotográfico da sua vida quotidiana. Para compreender a tradição poética americana da qual esta voz brota, nenhuma bússola é mais útil do que América en sus poetas, de Edgardo Dobry: um percurso pelos fios comuns de uma poesia que nunca parou de cruzar fronteiras.

O prémio chega a uma artista que há cinco décadas demonstra que a poesia pode sair de uma guitarra elétrica, que a literatura não precisa de ficar dentro das páginas. A voz humana, quando é honesta, cruza qualquer fronteira. Leia-a.