Pérez-Reverte sem ficção: as guerras que não inventou
Há uma frase de Arturo Pérez-Reverte que anda a dar-me voltas na cabeça há dias: «As editoras pedem livros a qualquer famoso. O que é bom sufoca debaixo de tanta lixeira.» Disse-o numa entrevista ao El Cultural sobre Enviado especial, as suas novas memórias publicadas pela Alfaguara, e não é exatamente uma revelação — mas vinda de Reverte soa diferente. Porque Reverte não fala de uma torre de marfim. Fala das trincheiras.
Enviado especial é o relato de vinte e um anos como correspondente de guerra para a TVE e imprensa espanhola. Líbano, Balcãs, Eritreia, Golfo, América Central. São as guerras que depois alimentaram romances como Línea de fuego e El húsar, mas aqui não há ficção a amortecer. Aqui há pó, medo e o olhar de alguém que viu o pior que os humanos se fazem uns aos outros.
O que torna umas memórias de guerra de um romancista bestseller interessantes em 2026? O contraste. Vivemos numa era em que a guerra se consome em formato TikTok. Reverte vem de um tempo em que o correspondente tomava banho de lama, dormia onde podia e tinha de confiar nos próprios olhos. Ler Enviado especial é como pôr um disco de vinil depois de anos de streaming: mais ruidoso, mais imperfeito, mais real.
O que me parece mais provocador é a contradição que Reverte encarna sem pestanejar. É um novelista bestseller que denuncia a indústria que o fez bestseller. Escreve sobre Revolución e La Reina del Sur e ao mesmo tempo diz que as editoras publicam demais. Hipócrita? Talvez. Honesto? Também.
Enviado especial não é um livro para nos sentirmos bem. É um livro para nos sentirmos desconfortáveis, que é o que a boa não ficção deve sempre fazer. Estamos dispostos a ler sobre guerras reais num mundo que prefere consumir guerras fictícias? Reverte aposta que sim.