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Um romance que resiste ao cinema, e uma estrela que não se importa

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Sigrid Nørgaard
· 3 min de leitura
Um romance que resiste ao cinema, e uma estrela que não se importa
Quando li Assimetria pela primeira vez — o estranho, preciso e formalmente ousado romance de estreia de Lisa Halliday de 2018 — lembro de ter pensado que era um daqueles livros que se explicam contra a adaptação. Não pelo estilo exatamente, mas pela estrutura. Duas seções aparentemente desconexas: a primeira, uma história de amor entre uma jovem americana chamada Alice e um romancista idoso chamado Ezra Blazer; a segunda, um ítaco-americano detido numa sala de interrogatório no aeroporto de Heathrow. Richard Gere interpretará Ezra Blazer, foi confirmado. Num certo nível, é uma escolha de elenco óbvia: Gere tem 77 anos, é elegante, um ator que sempre compreendeu a estética particular do declínio e da beleza americanos. Ezra Blazer — modelado, segundo todos assumiam, em Philip Roth — é o tipo de papel que exige exatamente essa combinação de carisma e ambiguidade moral. Assimetria não é um livro sobre Roth, mas é um livro que o conhecia, no sentido biográfico. O que permanece incerto é se o filme preservará a segunda seção, a do ítaco-americano. É a metade mais ousada do romance; também é a metade que o torna uma obra-prima em vez de um retrato de relacionamento. Sem ela, você tem uma história de amor competente. Com ela, você tem algo que faz perguntas incômodas sobre de quem perspectiva, no final, conta como literatura. O romance de Halliday é um dos melhores estreias americanas da última década. Se o filme será um dos melhores da próxima é, claro, outra questão.