Robert Caro, 90 anos e 983 páginas: o homem que não consegue parar de escrever história
Um biógrafo que leva décadas a escrever sobre um presidente que mudou o mundo. Robert Caro tem noventa anos e trabalha há quarenta e quatro em Os anos de Lyndon Johnson, a saga biográfica mais ambiciosa da literatura norte-americana do século vinte. Na semana passada, numa entrevista à C-SPAN, segurou uma grossa pilha de papéis e declarou: «Escrevi 983 páginas. Isto é isto. E isto é o resto do livro.»
Há algo que me comove profundamente nessa imagem. Um homem de noventa anos, de pé com as suas páginas, anunciando que não terminou. Que ainda há mais.
A série começou em 1982 com O caminho para o poder, o primeiro volume sobre os anos de formação de Johnson. O segundo chegou em 1990. O terceiro, Master of the Senate, em 2002. O quarto, The Passage of Power, em 2012. Quatro livros em quarenta anos, todos considerados obras-primas do género biográfico. A série acumulou um Prémio Pulitzer, um National Book Award e dois National Book Critics Circle Awards. E o final ainda não chegou.
O quinto volume abrangerá desde a vitória eleitoral esmagadora de LBJ em 1964 — a derrota devastadora de Barry Goldwater — até à morte do presidente em 1973. São os anos da Great Society e do Vietname. Quando lhe perguntaram quando sairia o livro, Caro respondeu com uma honestidade raramente ouvida no mundo editorial: «Pergunta justa.» Não deu data.
O que Caro pratica é quase o inverso do mercado editorial contemporâneo. Num mundo em que os livros se escrevem em meses, Caro trabalha com a paciência de um artesão medieval. «Tenho de ter tudo delineado. Não me posso simplesmente pôr a escrever.» E ninguém vê nada até estar tudo terminado.
Os livros que demoram décadas a chegar tendem a ser os que permanecem décadas depois de chegar. Nem sempre — mas no caso de Caro, sempre. Quando o quinto volume aparecer — e aparecerá, porque Caro tem 983 páginas que o provam — será um dos momentos literários da década.