Dezoito meses por uma história de amor: Rússia prende fotógrafo por fan fiction gay de K-pop
Existe uma longa tradição de regimes que tratam a literatura como evidência. A União Soviética o fazia com maestria — os manuscritos de Bulgákov escondidos por décadas, os versos de Mandelstam sussurrados ao ouvido da esposa para preservá-los. O que é novo na Rússia atual é a especificidade de suas ansiedades: não Dostoiévski, não Tolstói, mas fan fiction de K-pop. Especificamente: fan fiction gay de K-pop.
Um fotógrafo russo foi condenado esta semana a dezoito meses em campo de trabalho por publicar histórias de romance entre pessoas do mesmo sexo com estrelas do pop coreano. A sentença baseia-se na legislação russa de "propaganda gay", que evoluiu de proibir conteúdo para menores para um instrumento amplo de repressão à expressão LGBTQ+.
O fan fiction é a forma literária mais democrática que existe — não exige editora, editor ou permissão institucional. Para gerações de jovens, foi o espaço para explorar desejos, identidades e formas narrativas que a literatura oficial recusava. Não é, segundo a maioria das definições formais, literatura. Exceto que sempre foi.
1984 termina com o amor de Winston Smith pela linguagem destruído. Orwell entendeu que o Estado, ao agir contra o pensamento, age primeiro contra sua expressão. A Rússia agiu aqui com particular eficiência: dezoito meses em campo de trabalho por uma história sobre duas pessoas que se amam.
O fotógrafo cumprirá sua pena. O fan fiction provavelmente permanecerá online, replicado e indelével — o que pode ser a única forma de resistência atualmente segura.