Sally Rooney encontra o caminho: Intermezzo chega ao hebraico pela editora November Books
Há livros que ficam meses na pilha do "quando eu puder" e então uma notícia te obriga a tirá-los da prateleira. Isso me aconteceu esta semana com Intermezzo, o mais recente romance de Sally Rooney, quando se confirmou que a tradução para o hebraico será publicada pela November Books — uma editora israelense independente que apoia ativamente os direitos do povo palestino segundo os padrões da ONU.
Desde 2021 eu esperava por esse momento. Quando Rooney recusou publicar Beautiful World, Where Are You com uma grande editora israelense, a questão rondava os corredores literários: ela chegaria ao hebraico? A escritora irlandesa sempre disse que sim. E aqui está a editora: November Books, que colabora com a revista +972 Magazine e Local Call, publicações israelenses que defendem os direitos palestinos. Ishai Menuchin, diretor da November Books, resumiu: "Antes de tudo, Intermezzo é um romance extraordinário que merece estar disponível para os leitores em hebraico."
Intermezzo explora a dor do luto, a rivalidade fraterna e o amor como forma de sobrevivência. Rooney escreve com uma economia de meios que faz pensar nas grandes mestras da literatura italiana. Família e Burguesia, de Natalia Ginzburg — citada como referência para escritoras como Rooney, Elena Ferrante e Zadie Smith — é uma leitura que afina o olho para reconhecer quando uma prosa é verdadeiramente precisa. O mesmo vale para As Palavras da Noite, que Italo Calvino considerou o romance mais belo de Ginzburg.
O que admiro especialmente nesta decisão é que ela não é um gesto vazio. Publicar com uma editora pequena e politicamente comprometida tem consequências reais: menos distribuição, menos visibilidade, provavelmente menos vendas. Mas também mais coerência. E num momento em que o mundo literário navega entre as contradições do mercado global e as responsabilidades éticas de quem cria cultura, essa coerência vale algo. Os leitores israelenses que querem Rooney agora podem tê-la no próprio idioma. E Rooney pode dizer que chegou até eles sem abrir mão do que pensa.