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Um milhão para os monstros cotidianos: Schweblin vence o inaugural Prêmio Aena

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Dani Carrasco
· 3 min de leitura
Um milhão para os monstros cotidianos: Schweblin vence o inaugural Prêmio Aena

Você sabia que o prêmio literário mais lucrativo das letras hispano-americanas acabou de ser fundado por uma empresa de aeroportos?

Não é brincadeira. O Premio Aena de Narrativa Hispanoamericana existe, vale um milhão de euros — o mesmo que o Premio Planeta, para você ter uma noção da escala — e em sua primeira edição acaba de ir parar nas mãos de Samanta Schweblin por El buen mal, sua coleção de contos publicada pela Anagrama. Respira. É real.

Fico muito feliz que Schweblin tenha ganho. Não porque o dinheiro valida a literatura — a literatura não precisa de validação de ninguém, muito menos de uma empresa pública que administra aeroportos —, mas porque El buen mal é exatamente o tipo de livro que merece esse nível de visibilidade. Schweblin passa anos fazendo algo muito difícil: escrever contos onde o horror não grita, onde a catástrofe se aproxima em silêncio da cozinha ou do quintal, com personagens «encantados pelo brilho da tragédia iminente», como descreveu o júri. Isso não é para qualquer um.

Se você nunca leu Schweblin, experimente: abra El buen mal em qualquer página. Leia o primeiro parágrafo. Agora tente largar. Não consegue, né? Isso é o que Schweblin faz: ela arma uma armadilha tão suavemente que quando você percebe, já está três contos adiante.

O júri — presidido por Rosa Montero, com Leila Guerriero e Elmer Mendoza entre os sete membros — teve que escolher entre cinco finalistas de enorme estatura. Enrique Vila-Matas estava lá com Canon de cámara oscura, Héctor Abad Faciolince com Ahora y en la hora, Nona Fernández com Marciano. Que Schweblin tenha ganho faz todo sentido: se existe uma voz que representa o que importa na ficção hispano-americana hoje — sem repetir fórmulas do boom, sem medo do estranho, misturando o cotidiano com o perturbador até tornarem-se indistinguíveis —, é ela.

Sim, é estranho que um prêmio literário dessa magnitude seja organizado por uma empresa de aeroportos junto à Fundación Gabo e à Cátedra Vargas Llosa. É novo e diferente. Mas a literatura sobreviveu a parcerias mais estranhas. Se o resultado for que El buen mal chegue a leitores que não o teriam encontrado de outra forma, seja bem-vindo, aeroporto.

Os contos de Schweblin não precisam de pista de pouso para voar. Mas uma rampa de lançamento não faz mal. Se Distância de Resgate te deixou sem fôlego, espera até ler Sete Casas Vazias. E se você já passou por Pássaros na Boca, sabe exatamente do que estou falando.

A pergunta que fica no ar: os grandes prêmios mudam a trajetória de um autor? No caso de Schweblin, não acho — ela já está no topo. Mas talvez mudem a trajetória de seus leitores.