Siri Hustvedt e o fantasma de Paul Auster: quando o luto se escreve
Como se escreve sobre alguém que já não pode ler o que escreves sobre ele?
Essa pergunta, que parece impossível de responder, é a que Siri Hustvedt decidiu enfrentar no seu novo livro — descrito pelo El Cultural como «profundo e comovente» — no qual se funde com o fantasma de Paul Auster. Auster, o romancista de A Trilogia de Nova Iorque, morreu a 30 de abril de 2024 de cancro do pulmão. Estiveram juntos mais de quarenta anos. Dois escritores. Uma vida partilhada.
Hustvedt passou décadas a construir uma obra própria: romances como O que Eu Amei, ensaios que misturam neurociência e feminismo, meditações sobre perceção e loucura que têm mais camadas do que o mercado costuma reconhecer-lhe. Esteve sempre, em certa medida, à sombra do marido famoso. É injusto. Mas é assim que certas narrativas funcionam. Agora escreve a partir de um lugar estranho: o amor depois da morte. Não elegia, não homenagem, mas algo mais raro e difícil — presença.
A literatura do luto tem uma longa história de fracassos por excesso de pudor ou de sentimentalismo. Roland Barthes entendeu-o com o seu Diário do Luto: o luto não se pode narrar em ordem. Joan Didion também o entendeu, à sua maneira, com O Ano do Pensamento Mágico. E Hustvedt? As primeiras recensões apontam para que também tenha encontrado a forma.
Imagino o processo: regressar aos livros partilhados, às margens cheias de notas do outro, às conversas sobre páginas que já ninguém consegue lembrar da mesma forma. O momento exato em que um livro deixa de ser teu-e-dele e passa a ser apenas teu. Borges tinha razão quando dizia que um livro é o encontro entre quem o escreve e quem o lê. O que acontece quando o primeiro leitor já não pode ler?
É isso que Hustvedt escreve, creio. Não a ausência. A presença persistente de quem já não está.
Não é isso, no fundo, o que todas as pessoas fazem quando leem alguém que morreu? Procura o livro. E se não conheces nenhum dos dois, começa por onde quiseres — ambos te vão mudar.