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O triunfo estranho do livro que ninguém esperava

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Valentina Ríos
· 4 min de leitura
O triunfo estranho do livro que ninguém esperava

Há livros que não chegam às suas mãos pelas listas de bestsellers. Não os encontrará nas montras das grandes livrarias nem nas mesas de novidades dos aeroportos. Chegam, se chegam, através de uma amiga que leu de outra amiga que ouviu de alguém que estava a prestar atenção. São esses os livros que mais amo.

Mice 1961, da escritora americana Stacey Levine, chegou ao mundo editorial em silêncio. Publicado pela Verse Chorus Press, um pequeno selo de Portland, Oregon, o romance narra um dia na vida de duas irmãs reclusas numa dimensão floridiana inquietante, no auge da histeria da Guerra Fria. «Profundamente estranho», disseram as poucas recensões que teve. E assim ficou, durante anos: estranho, vivo, à espera.

Depois chegou o Pulitzer.

Quando Mice 1961 foi anunciado como finalista do Prémio Pulitzer de Ficção 2026, Stacey Levine soube pelo Facebook. Não por comunicado de imprensa. Não pela agente. Pelo Facebook. Esse detalhe diz tudo sobre como o mundo editorial trata as vozes que não se encaixam nos moldes comerciais.

Levine constrói uma obra experimental, excêntrica e profundamente americana desde os anos noventa. Tem leitores fiéis que sempre souberam que estavam perante algo diferente. O problema é que «diferente» raramente se torna «premiado». E no entanto aqui estamos.

O que é mais belo — e mais perturbador — nesta história não é que o Pulitzer reconheceu um livro estranho. É que foi necessário esse reconhecimento para o mundo prestar atenção. A novela existe há anos. Só agora, com o prémio em cima, uma editora grande como a Ecco a reeditou para que chegue a mais mãos. Como se o livro precisasse de permissão para ser lido. Quantos livros como este estão à espera em estantes de selos pequenos?

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