A Woolf que não conhecíamos: os contos que estavam nos esperando
Há livros que esperamos a vida inteira sem saber que os estávamos esperando. Quando li na semana passada que contos inéditos de Virginia Woolf tinham vindo à tona—relatos que ninguém havia visto, revelando o que uma crítica chamou de «sua faceta mais apaixonada e brincalhona»—senti algo parecido com o que sinto quando um amigo me devolve um livro emprestado com páginas dobradas que eu não dobrei. Como encontrar algo que não havia perdido.
Woolf viveu décadas sob o peso de sua própria lenda. A escritora das ondas, do fluxo de consciência, do modernismo em estado puro. A que disse que uma mulher precisa de dinheiro e de um quarto só seu para escrever ficção. Tendemos a ver sempre as mesmas coisas: a melancolia, o experimento formal, a tragédia biográfica. Mas agora chegam estes contos novos—novos para nós, pelo menos—e nos dizem que havia outra Woolf. Mais leve, mais apaixonada pelo mundo. Brincalhona.
Em A Senhora Dalloway em Bond Street, essa coletânea que muitos leitores ainda não descobriram, já estava essa Woolf mais íntima. A que caminha pelas ruas de Londres com os sentidos em estado de alerta total, a que encontra em cada detalhe cotidiano a matéria do que pode ser contado. Estes inéditos confirmam algo que seus leitores mais próximos já intuíam: que o gênio não mora apenas nos grandes edifícios.
Me pergunto o que haverá nessas páginas. Se haverá uma mulher que deseja sem vergonha, que ri de verdade, que escreve como quem dança sozinha no quarto. García Márquez dizia que seus primeiros rascunhos eram sempre mais livres, mais impudicos, antes que o ofício interviesse e ordenasse. Talvez estes contos de Woolf tenham essa mesma energia de primeiro impulso.
Depois de ter segurado Um Teto Todo Seu nas mãos e sublinhado seus parágrafos até quase quebrá-lo, ainda há Woolf para ler. Sempre há. É isso que fazem os grandes escritores: nunca terminam. E o que fazem os grandes leitores é estar dispostos a ser surpreendidos. Mais uma vez.