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O segundo romance de Yasmin Zaher: uma jornalista palestina chega às grandes editoras

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Valentina Ríos
· 3 min de leitura
O segundo romance de Yasmin Zaher: uma jornalista palestina chega às grandes editoras

Alguns livros te reorganizam por dentro. The Coin, o romance de estreia de Yasmin Zaher (Riverhead, 2024), foi assim: uma história esparsa e hipnótica sobre uma mulher palestina que dá aulas em Nova York, obcecada quase clinicamente com a limpeza — as luvas brancas, o toque das coisas, o piso de azulejo —, e dentro dessa contenção, tudo: o deslocamento, a identidade suspensa, o corpo em território estranho. Terminei a leitura de madrugada, com a certeza de ter passado horas dentro de uma mente extraordinária.

Por isso a notícia chega como confirmação. A Riverhead Books adquiriu o segundo romance de Zaher, desta vez centrado em uma jornalista palestina. Os detalhes ainda são escassos. Mas bastam para perguntar que tipo de livro nascerá dessa combinação — uma escritora com prosa de bisturi e uma protagonista que reporta, que observa, que traduz a realidade em palavras com urgência e propósito.

Jornalismo e literatura nunca estiveram realmente separados. García Márquez trabalhou como cronista por anos antes de Macondo transbordar todos os seus cadernos. Kapuściński passou décadas em guerras africanas e asiáticas antes de transformar essa experiência em algo que não era nem reportagem nem ficção — as duas coisas ao mesmo tempo. Uma jornalista palestina, situada em qualquer ponto do globo por Zaher, carrega um olhar treinado na urgência e na injustiça. Nas mãos dela, esse olhar vira literatura.

A Riverhead — que publicou A Vegetariana de Han Kang antes que alguém soubesse pronunciar o nome dela, que apostou em Mohsin Hamid quando ele escrevia sobre a diáspora paquistanesa — sabe reconhecer uma voz. Sabe que há leitores esperando livros que não diluem a história, que não traduzem a dor em metáfora suave.

Há leituras que te mudam não por ensinarem algo novo, mas por confirmarem o que você já intuía: que a ficção pode ir onde o jornalismo não chega. Pode habitar o corpo de uma mulher que olha e escreve de um lugar impossível, e fazer com que essa impossibilidade pareça também sua.

Enquanto esperamos o segundo romance de Zaher, vale ler os escritores da diáspora que contam o mundo a partir das margens há décadas. Teju Cole, em Cidade aberta, criou um dos livros mais singulares sobre o que significa caminhar por uma cidade que não é a sua. Mohsin Hamid, em Saída para o Ocidente, transformou a migração em um portal por onde seus personagens cruzam fronteiras de forma impossível e bela. E em O fundamentalista relutante, já havia mostrado como uma identidade muçulmana na América pode ser um monólogo sustentado, uma confissão e uma acusação.

Zaher pertence a essa tradição. Seu segundo romance, quando chegar, será uma daquelas leituras que movem o chão.