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O verbo que nunca morre: Yiyun Li e o Prémio Pulitzer de Memórias

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Sigrid Nørgaard
· 3 min de leitura
O verbo que nunca morre: Yiyun Li e o Prémio Pulitzer de Memórias

Há uma frase perto do início das memórias de Yiyun Li que não deixei de pensar desde que a li: «O verbo que nunca morre é ser. Vincent foi, é e será sempre Vincent. James foi, é e será sempre James.» Volto à gramática. Não ao luto — o luto é óbvio, enorme, incontrolável — mas à gramática. Li perdeu o seu filho Vincent em 2017, com 16 anos, e o seu filho James em 2024, com 19. Ambos por suicídio. Things in Nature Merely Grow é o que escreveu depois.

O Prémio Pulitzer de Memórias 2026 foi para este livro. O júri descreveu-o como «um relato profundamente comovente e revelador de uma escritora, umas memórias austeras e desafiadoras de aceitação que se centram nos factos, na linguagem e na persistência da vida». Li não escreve sobre a morte, exactamente — escreve sobre o que sobrevive a ela, na linguagem, no verbo «ser».

Li nasceu na China, emigrou para os Estados Unidos e tornou-se escritora em inglês — a sua segunda língua. O inglês é o idioma em que chorou, em que tornou os seus filhos permanentes através da prosa. Things in Nature Merely Grow é, entre outras coisas, uma meditação sobre o que a linguagem pode e não pode carregar.

O livro é quieto, quase deliberadamente austero, e recusa a consolação em qualquer forma óbvia. Não explica nem resolve. Declara, e deixa que os factos se acumulem. A edição portuguesa usa uma palavra que capta algo que o título inglês não consegue: «transformador». Talvez seja isso o que o Pulitzer reconheceu.

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